Há 20 anos atrás (quando uma pessoa tem estatuto para escrever coisas destas, é porque está a ficar velha), tinha eu CINCO anos e uns meses (mas é sempre bom sublinhar a idade, não vá algum atrasadinho pensar coisas que não deve), cruzei-me com um senhor na rua que gritava, alto e bom som: “O Mário Soares e os cachopos, era tudo na prisão. Tudo fechado na prisão!”. Não sei de onde é que lhe vinha aquela raiva do orelhas e das criancinhas, mas percebo que quando estamos enervados nos apeteça mandar toda a gente badamerda. Hoje, por exemplo. Saio de casa às 6:50 da manhã, cedo para xu-xu e cedíssimo para o meu habitual, e mal deixo a minha rua tenho à minha frente uma mulherzinha vulgar que insiste em parar nos semáforos verdes. Nas passadeiras vazias, olha para ver se não há ninguém. Desconfio que, sozinha naquele carro verde bandeira (muito melhor que o meu, é um facto, mas a cor é uma ofensa ao gosto de uma iraquiana com dinheiro em Paris), também olhava para o lado a ver se não estava ninguém sentado no banco do pendura, depois de um cruzamento.
Quando chegámos à Praça de Espanha, vazia como numa noite de Verão, matei-a. Ainda não se paga para sonhar, pois não?



